Juros sobre juros: como uma dívida pequena vira uma dívida grande
Num exemplo mês a mês, veja como juros sobre juros fazem uma dívida de R$ 500 passar de R$ 1.500 em um ano, por que pagar pouco não basta e como frear a dívida.
Com juros hipotéticos de 10% ao mês, uma dívida de R$ 500 passa de R$ 1.500 em um ano, sem você comprar mais nada. Isso acontece porque os juros de cada mês entram no saldo e, no mês seguinte, também passam a cobrar juros. É o tal juros sobre juros, e entender a conta é o primeiro passo para parar a bola de neve.
Juros simples e juros compostos
Nos juros simples, a taxa é sempre aplicada sobre o valor original. Nos juros compostos, ela é aplicada sobre o saldo do momento, que já inclui os juros anteriores.
O glossário de cidadania financeira do Banco Central explica que, nos juros compostos, os juros de um período se acumulam no saldo devedor para o cálculo do período seguinte, e que a imensa maioria dos empréstimos e financiamentos funciona assim. Por isso, quando o assunto é dívida, pense sempre em juros compostos.
A conta passo a passo
Imagine uma dívida de R$ 500 com juros de 10% ao mês. A taxa é hipotética e redonda, só para facilitar a conta, e não paga nada nesse período.
- Mês 1: R$ 500 x 10% = R$ 50 de juros. Saldo: R$ 550.
- Mês 2: R$ 550 x 10% = R$ 55 de juros. Saldo: R$ 605.
- Mês 3: R$ 605 x 10% = R$ 60,50 de juros. Saldo: R$ 665,50.
Repare: os juros não ficam em R$ 50. Eles crescem todo mês, porque a base cresce. Seguindo a mesma conta:
| Mês | Saldo com juros compostos | Saldo se fossem juros simples |
|---|---|---|
| 0 | R$ 500,00 | R$ 500,00 |
| 3 | R$ 665,50 | R$ 650,00 |
| 6 | R$ 885,79 | R$ 800,00 |
| 9 | R$ 1.178,99 | R$ 950,00 |
| 12 | R$ 1.569,24 | R$ 1.100,00 |
Nos juros simples, seriam R$ 50 por mês, sempre: R$ 500 + (12 x R$ 50) = R$ 1.100. Nos compostos, a dívida chega a R$ 1.569,24, mais que o triplo do valor inicial. Os R$ 469,24 de diferença são os juros cobrados sobre juros.
Para testar com outros valores e taxas, use a nossa calculadora de juros compostos.
Por que pagar um pouco não resolve
Agora imagine a mesma dívida de R$ 500, a 10% ao mês, e que você consegue pagar R$ 40 por mês.
- Mês 1: R$ 500 + R$ 50 de juros = R$ 550. Paga R$ 40. Saldo: R$ 510.
- Mês 2: R$ 510 + R$ 51 de juros = R$ 561. Paga R$ 40. Saldo: R$ 521.
O pagamento de R$ 40 é menor que os juros do mês, então o saldo sobe. Depois de 12 meses assim, você terá pago R$ 480 e ainda vai dever cerca de R$ 713,86, mais do que no começo.
A regra para guardar: se a parcela não cobre os juros do mês, a dívida cresce.
Agora o outro lado. Com R$ 100 por mês, nas mesmas condições hipotéticas, a dívida acaba no 8º mês e o total pago fica em cerca de R$ 728. Ainda é bem mais que os R$ 500, mas a bola de neve para. Para quem ganha R$ 1.800 líquidos (renda hipotética; o salário mínimo muda todo ano e é definido pelo governo federal), a diferença entre R$ 40 e R$ 100 por mês pesa. Por isso vale cortar em outro lugar por alguns meses.
Onde os juros sobre juros mais aparecem
- Rotativo do cartão: é o que acontece com a parte da fatura que você não paga. Se é o seu caso agora, veja o que fazer quando não dá para pagar a fatura.
- Cheque especial: o limite que aparece junto do saldo e é usado sem você perceber.
- Empréstimos e crediário: a parcela fixa esconde juros compostos dentro dela.
- Conta atrasada: além dos juros, costuma haver multa e encargos de atraso previstos no contrato.
O Banco Central, na área de Cidadania Financeira, aponta que os créditos mais caros costumam ser os mais fáceis de conseguir, e recomenda fugir do cheque especial e pagar o cartão em dia para não cair no rotativo.
Um freio que a lei já colocou
Para o cartão de crédito existe um teto. A Lei 14.690, de 2023, definiu que, desde 3 de janeiro de 2024, os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem passar de 100% do valor original que ficou sem pagar ou foi parcelado. O exemplo do Banco Central: se você deixou de pagar R$ 100, os juros e custos não podem passar de R$ 100.
O teto ajuda, mas não salva: na prática, a dívida pode chegar ao dobro. E ele vale para o rotativo e o parcelamento da fatura, não para todos os tipos de crédito.
Como descobrir a taxa que você está pagando
Muita gente sabe o valor da parcela, mas não a taxa. A Calculadora do Cidadão, do Banco Central, resolve isso na opção "Financiamento com prestações fixas": você informa três dados e ela calcula o quarto, usando juros compostos.
Em um exemplo simples: um produto de R$ 1.000 à vista oferecido em 10 parcelas de R$ 120, sem entrada. O total vai a R$ 1.200 e, pela conta de juros compostos que a calculadora usa (primeira parcela um mês depois da compra), a taxa embutida fica em cerca de 3,46% ao mês. Para decidir entre as duas formas, use também a nossa calculadora parcelar ou à vista.
O próprio Banco Central avisa que a calculadora não confere se o cálculo do banco está certo, porque pode haver seguros e outros custos fora da simulação. Por isso, ao comparar ofertas, peça o CET, o Custo Efetivo Total, que reúne juros, tarifas, impostos e outras despesas.
Próximos passos
- Faça hoje a lista de todas as dívidas com quanto falta, quantas parcelas faltam, o valor da parcela e a taxa, como sugere o Banco Central.
- Descubra a taxa de cada uma na Calculadora do Cidadão e marque a mais cara.
- Confira se o que você paga por mês cobre pelo menos os juros do mês; se não cobre, essa dívida é a prioridade.
- Procure o banco para negociar taxa menor ou prazo diferente, ou trocar a dívida cara por uma mais barata.
- Monte um plano com o guia como sair das dívidas ganhando um salário mínimo e, se as dívidas já passaram da renda, leia sobre superendividamento.
Perguntas frequentes
O que é juros sobre juros?
Por que pago todo mês e a dívida não diminui?
Existe limite para os juros do rotativo do cartão?
Como descubro a taxa de juros que estou pagando?
Fontes e referências
Indicadores de hoje
Ver no Banco CentralOs números do Banco Central não carregaram desta vez. Veja direto no site do Banco Central.
Dados do Banco Central do Brasil (séries SGS), buscados ao abrir a página.
Leia também
Mais guias de Economia no bolso e de outros temas.
Pirâmide financeira e falso investimento: como reconhecer a tempo
Pirâmide financeira paga quem entrou antes com o dinheiro de quem entra depois. Veja os sinais de alerta, como checar a empresa na CVM e no BC e onde denunciar.
Inflação: por que o salário compra menos a cada ano
Entenda a inflação sem jargão, a diferença entre IPCA e INPC, por que o mesmo salário compra menos a cada ano e onde consultar os índices oficiais de graça.
Orçamento com salário mínimo: como fazer o dinheiro durar o mês todo
Aprenda a dividir o salário mínimo em quatro blocos no dia do pagamento e a controlar a comida por semana, com exemplo e conta para o dinheiro durar o mês.