Não consigo pagar a fatura do cartão: o que fazer agora
A fatura venceu e o dinheiro não dá? Entenda rotativo, parcelamento e o teto de juros da Lei 14.690/2023, e veja o que pedir ao banco antes de decidir.
Se a fatura do cartão venceu e o dinheiro não dá, a pior escolha costuma ser não fazer nada. Você tem três caminhos: pagar uma parte e cair no rotativo, parcelar a fatura ou ficar inadimplente. Antes de escolher, vale saber quanto cada um custa, o limite que a lei põe nos juros e o que você pode pedir ao banco.
Os três caminhos quando a fatura não fecha
O Banco Central descreve assim o que acontece quando você não paga o total na data de vencimento:
- Parcelar a fatura: você contrata uma operação de crédito para dividir o saldo em parcelas fixas.
- Pagar uma parte e não parcelar: o que faltou entra no crédito rotativo, com os juros e encargos do contrato. A cobrança de juros extras de punição (a chamada comissão de permanência) é proibida.
- Não pagar nada: você fica inadimplente, com juros do rotativo e multa, e o banco pode aplicar as medidas de atraso que estão no contrato.
Nenhum dos três é de graça. A diferença está em quanto você paga a mais e por quanto tempo.
Rotativo: o crédito que só dura até a próxima fatura
Rotativo é o empréstimo automático que o banco faz quando você paga menos que o total. A taxa mensal dele vem na fatura, e é ela que você compara com a do parcelamento.
Pela Resolução 4.549/2017 do Conselho Monetário Nacional (CMN), o saldo só pode ficar no rotativo até o vencimento da fatura seguinte, em geral uns 30 dias. Passado esse prazo, o que sobrou precisa ser quitado ou ir para um parcelamento em condições mais vantajosas do que as do rotativo.
Na fatura, procure também as opções de parcelamento do saldo e o Custo Efetivo Total (CET) de cada uma. Pelo Código de Defesa do Consumidor, o CET soma todos os valores cobrados de você na operação, não só os juros. É esse número que você compara.
O teto de juros da Lei 14.690/2023
A Lei 14.690/2023 limitou o quanto essa dívida pode crescer. Segundo o Banco Central, para dívidas de cartão originadas a partir de 3 de janeiro de 2024, o total cobrado de juros e encargos no rotativo e no parcelamento da fatura não pode passar do valor original da dívida.
Três detalhes importam:
- O limite vale também quando o rotativo é transformado em parcelamento. Multa e juros de atraso entram na conta.
- Compras parceladas com juros não entram nesse teto.
- O teto é um limite máximo, não o preço normal. Muita dívida vai custar menos que isso, e mesmo assim pesar no orçamento.
Exemplo: quanto a dívida pode crescer
Imagine uma fatura de R$ 1.200 e uma renda de R$ 1.500 líquidos (valor redondo de exemplo: o salário mínimo muda todo ano e é definido pelo governo federal). Você consegue pagar R$ 300 e sobram R$ 900 no rotativo. As taxas abaixo são hipotéticas, só para mostrar a conta.
Se ficar no rotativo com juros hipotéticos de 15% ao mês, a dívida do mês seguinte fica assim: R$ 900 x 1,15 = R$ 1.035, fora as compras novas.
Se parcelar em 6 vezes com juros hipotéticos de 8% ao mês, a parcela fica perto de R$ 195. Conta do total: 6 x R$ 195 = R$ 1.170. Os juros somam cerca de R$ 270.
O teto: sobre os R$ 900 originais, o máximo de juros e encargos é R$ 900. A dívida pode chegar a, no máximo, R$ 1.800.
| Caminho | Quanto sai do bolso | Observação |
|---|---|---|
| Rotativo por um mês | R$ 1.035 na fatura seguinte | Só pode durar até o próximo vencimento |
| Parcelamento em 6x | Cerca de R$ 1.170 no total | Parcela de R$ 195 por mês |
| Limite legal | Até R$ 1.800 | Juros e encargos somados |
Repare na parcela: R$ 195 em uma renda de R$ 1.500 é 13% do mês. Se isso não cabe depois do aluguel e da comida, o parcelamento vira atraso de novo. Para ver como os juros se acumulam mês a mês, leia sobre juros sobre juros.
O que pedir ao banco
Você pode ligar, usar o aplicativo ou ir à agência. Peça por escrito:
- Todas as opções de parcelamento, com número de parcelas, valor de cada uma, taxa mensal e CET.
- O valor para quitar à vista, caso consiga juntar o dinheiro. O Código de Defesa do Consumidor assegura a quitação antecipada, total ou parcial, com redução proporcional dos juros.
- O bloqueio do cartão para novas compras enquanto paga o parcelamento. Isso evita uma fatura nova em cima da antiga.
- Uma proposta de portabilidade, se outra instituição oferecer condição melhor. A Lei 14.690/2023 dá direito a levar o saldo devedor da fatura, inclusive parcelas já financiadas, para outra instituição, e o banco original não pode cobrar pela troca de informações nem pela transferência.
Cobrança com ameaça ou constrangimento é proibida pelo Código de Defesa do Consumidor. Se o atendimento travar, registre reclamação no Consumidor.gov.br ou no Procon.
Erros que pioram a situação
- Pagar só o mínimo por vários meses achando que resolve. O saldo não pode ficar no rotativo além de uma fatura, e o que sobra precisa ser quitado ou parcelado.
- Usar o cartão enquanto paga o parcelamento. A parcela nova soma com as compras e a fatura volta a não fechar.
- Pegar outro crédito sem comparar o CET. Trocar uma dívida cara por outra mais cara só adia o problema.
- Sumir. Depois de um tempo de atraso, a dívida pode ir para os cadastros de inadimplentes. O guia de CPF negativado explica o que acontece nesse caso.
Se o cartão é só uma entre várias dívidas, monte o plano completo com o guia como sair das dívidas ganhando um salário mínimo. E se nenhuma parcela cabe na renda, existe o caminho do superendividamento.
Próximos passos
- Abra a fatura e anote o valor total, o mínimo e as opções de parcelamento com o CET de cada uma.
- Calcule quanto sobra no seu mês depois das contas essenciais e escolha uma parcela que caiba com folga.
- Peça ao banco, por escrito, as opções de parcelamento e o valor para quitar à vista.
- Bloqueie o cartão para compras novas até terminar de pagar.
- Antes de parcelar qualquer compra nova, faça a conta na calculadora parcelar ou à vista.
Perguntas frequentes
O que acontece se eu pagar só o mínimo da fatura?
Os juros do cartão têm limite?
Posso levar a dívida do cartão para outro banco?
Não paguei nada da fatura. E agora?
Fontes e referências
Indicadores de hoje
Ver no Banco CentralOs números do Banco Central não carregaram desta vez. Veja direto no site do Banco Central.
Dados do Banco Central do Brasil (séries SGS), buscados ao abrir a página.
Leia também
Mais guias de Dívidas e crédito e de outros temas.
Superendividamento: o que a lei garante para quem não consegue pagar
O que a Lei 14.181/2021 chama de superendividamento, o que é mínimo existencial, que dívidas entram no plano de até 5 anos e como pedir no Procon ou na Justiça.
Como sair das dívidas ganhando um salário mínimo
Plano em cinco etapas para sair das dívidas com renda baixa: listar o que deve, medir a folga do mês, escolher a ordem e negociar pelos canais oficiais.
Contas atrasadas: qual pagar primeiro quando o dinheiro não dá
Com várias contas vencidas, veja uma ordem de prioridade que protege comida, moradia, luz e água, o que diz a regra de corte de energia e como negociar o resto.